Diálogos da Esfinge

Inicio aqui meus diálogos com a esfinge, afinando a escuta com o oráculo interior. Serei pergunta e resposta. Por vezes o silêncio, a lucidez e a loucura. Trocarei de papéis e de mistérios. Assim, caminho em direção à esfinge, despindo-me vagarosamente dos meus medos. E vou nua. Ao pé da esfinge, deposito o gesto e a intenção. Ergo os olhos e encaro o que me devora e não me apavora, nesse momento, essa fenda no abismo. Corro o risco da decifração. Eis-me aqui, nesses diálogos...

sexta-feira, março 31, 2006

A esfinge veio devagar


A esfinge veio devagar
Passos leves
E pegadas fundas
Na minha alma
Acordando um tempo
Mais antigo ainda
E profundo
De ver e de ouvir
E de tocar o passado
O tambor dentro de mim
A esfinge veio devagar
Num dia de crença absoluta
Ela pousou estranha
Na lucidez de um dia comum
E afundou os pés
Numa interrogação despretensiosa
E afundou âncora
E me levou pela mão
E pelo sentido contrário
A esfinge que veio devagar
Já vagava dentro de mim
Como uma noite anunciada
Sentia o seu hálito frio
Seus olhos invisíveis
Vasculhando a raiz
Dos meus pressentimentos
Umas mensagens soltas
Cutucando no fundo do meu olho
De dentro das minhas pálpebras
E sussurrava:
Abra, abra, abra...
Acorda, acorda, acorda...
E o tambor que vibrava dentro de mim
Marcava um ritmo de não-movimentos
Intervalos, silêncios e abismos
E negava
A porta
E negava
A chave
E negava
A fala
Do enigma
Que agarrava meus tornozelos
A partir daquele dia
O mergulho com a esfinge
Desatou o fundo de todas as perguntas
Que bóiam nas minhas palavras
As minhas palavras que cutucam
Os diálogos da solidão.
Goiânia, 31-03-2006.